- This topic has 15 respostas, 11 utilizadores, and was last updated Há 12 years, 11 months by
Nuno Janardo.
Home › Forum APK › Killifilia › Viagens de Colecta › Coleta de Fundulus em Castro Marim
-
AutorArtigos
-
21/05/2013 às 13:02 #217946
Viva,
Aproveitei o fim de semana passado para visitar o Guadiana com alguns amigos, percorrendo a zona de Mértola a Castro Marim e, como não podia deixar de ser, apanhando uns killies.
Particularmente interessante, nos seres vivos, é que nos reservam sempre surpresas…
Apesar de eu há anos não ir a Castro Marim, os Fundulus la estavam no sitio do costume; na zona de salinas junto aos pombais:

Bastou-me mergulhar três ou quatro vezes o camaroeiro para apanhar mais de cem Fundulus. Eram demasiados para o transporte, portanto devolvi metade deles à água e, mesmo assim, ainda trouxe mais de cinquenta. Continuavam a ser muitos, na altura já só tinha um garrafão disponível mas eu sabia que o heteroclitus é extremamente resistente a condições que transporte que matariam outros peixes: sobreviveram todos.
A minha primeira surpresa foi que os Fundulus eram jovens, com uns 4 ou 5 cm, os adultos chegam a ter mais de 10 cm, principalmente as fêmeas, mas não encontrei nenhum adulto… noutras coletas que fiz deste peixe apanhei sobretudo adultos.
A segunda surpresa foi tão espantosa que eu não tenho a certeza de acreditar nela… provavelmente estou pitosga. É que, dos tais 50 peixinhos que apanhei… acho que tenho 50 machos. Enfim, posso estar a ver mal, talvez o menor tamanho dos peixes me esteja a confundir mas… a diferença entre machos e fêmeas costuma ser evidente, quanto muito podem-se confundir machos pouco coloridos com fêmeas, nunca ao contrário. Tenho que observá-los mais atentamente, um por um, em aquário, por enquanto estão num contentor a fazer a quarentena.
Caso se confirme que são 50 machos… devo ter deparado talvez com uma espécie de reunião de solteiros… desconhecia que isto acontecesse com estes Fundulus mas existem espécies que formam cardumes do mesmo sexo, quando não estão a reproduzir-se. Tambem pode ser que variações de salinidade, temperatura ou mesmo acidez, relativamente comuns em salinas, tenham produzido uma geração de machos.
Por enquanto, ainda espero estar errado, talvez a própria alimentação dos juvenis, à base de algas e de pequenos animais no lodo, os escureça a ponto de parecerem machos, em determinadas alturas.
A ver vamos, dentro de alguns dias coloco-os em aquário.
A verificar-se que são realmente cinco dezenas de machos… tenho que descobrir o raio vou fazer eu com eles, talvez uma caldeirada.
Miguel
21/05/2013 às 16:01 #236376Muito bem Miguel. Parabens!
Espero que haja aí alguma femea. Que mais apanhaste?Abraço,
João21/05/2013 às 22:19 #236377Boa noite Miguel.
Apesar das noticias não serem assim tão boas com o facto de todos poderem ser machos o agradável desta tua mensagem é que felizmente e pelo que depreendo das tuas recolhas a população parece estar saudável e presente em grande quantidade.
Apesar de ser um peixinho “não muito atraente” e que atinge um tamanho muito acima dos padrões ditos normais para a maioria dos killies penso que alguns dos nossos sócios estarão tentados a manter uns casais em sua casa.
Só queria fazer uma chamada de atenção: o facto de existirem em grande quantidade não quer dizer que esta população não possa estar em perigo num futuro muito próximo.
Obrigado pela partilha desta informação e boa sorte.
Abraço.22/05/2013 às 00:00 #236378Vitor,
Trata-se de um peixe introduzido, oficialmente é considerado nefasto para o meio ambiente porque pode comer crias de outros peixes: os estuários que habita são frequentemente locais de desova e de crescimento de alevins. Portanto, seria uma benção que o Fundulus heteroclitus desaparecesse das águas portuguesas – porém, infelizmente, não é isso que está a acontecer, a espécie já passou da foz do Guadiana para outras zonas do Algarve. Com o tempo irá trepar por aí acima, atingindo o Sado, o Tejo e talvez mesmo o Mondego.
Desde que foi introduzido no Gualdalquivir pelas Caravelas Espanholas vindas do novo mundo, o Fundulus heteroclitus não tem parado de se expandir. Felizmente é algo que tem feito lentamente, ao longo de muitas décadas.
É devido a essa expansão moderada que eu considero este invasor bastante menos nefasto que outros conterraneos seus tais como a gambusia ou a perca-do-sol. Além de dar tempo à fauna local para se adaptar, o Fundulus ocupa um nincho relativamente novo: os ambientes com grandes variações de salinidade, incluindo as águas hiper-salinas: pode facilmente viver em água com o dobro da concentração de sal da água salgada, algo que mataria um vulgar peixe marinho. Neste meio, o único peixe que com que talvez pudesse comperir seria o Aphanius mas este não existe em Portugal.
Creio que muitos killiófilos não são frívolos a ponto apenas apreciarem um peixe se este for colorido. Acho que, para o verdadeiro entusiasta, a cor é simplesmente mais um bónus, não é necessariamente o factor principal.
O fascinante no heteroclitus é a sua resistencia. Em alguns rios americanos é a única espécie que se encontra porque é capaz de suportar com níveis inimagináveis de poluentes. Além de viver em quase todo o tipo de água, poluida ou pura, salgada, hiper-salgada ou doce, também aguenta temperaturas desde quase 40ºC até ligeiramente acima do ponto de congelação. Quando a temperatura desce muito tem uma estratégia curiosa: enterra-se profundamente no lodo e por lá fica, se necessário meses, até a temperatura voltar a subir. Inesperadamente, é também um semi-anual: os ovos entram em diapausa e podem estar meses sem água. O Fundulus aproveita as marés vivas da lua cheia para pôr os ovos no extremo máximo da maré. Os ovos passam frequentemente um mês sem água, até à próxima maré viva. No variável ambiente de estuário, além das marés há que contar com o caudal sazonal dos rios e com as chuvas, portanto alguns ovos de Fundulus acabam por passar meses sem água, enterrados na lama… isto frequentemente acontece nas nossas salinas, quando a água evapora de tal maneira que os niveis de sal acabam por matar todos os peixes, mesmo os Fundulus. Quando o sal é recolhido e as comportas voltam a ser abertas, uma nova geração aparece.
Trata-se assim de uma espécie muito, muito fora do comum e, como tal, também particularmente interessante.
Miguel
22/05/2013 às 00:10 #236379Que mais apanhaste?
Não ia em busca de muita coisa, fui mais pelo passeio e pelos Fundulus. Apanhei simplesmente algumas plantas: uma interessante Potamogeton sp. parecida com a crispus e uma Urticularia sp. que cria tapetes, além de pequenos caracois do tipo nerite no Vascão e de alguns camarões portugueses, as femeas nesta algtura do ano andam cheias de ovos. Ouvi dizer que estes camarões comem as algas filamentosas e quero experimentar.
Miguel
22/05/2013 às 00:27 #236380Pra não dizer q o Fundulus compete com a Valencia hispanica no mesmo habitat.
A Valencia não mudou de género para Nesiris ou qualquer coisa assim parecida?22/05/2013 às 11:07 #236381Algumas fotos do passeio constam aqui.
Miguel
22/05/2013 às 11:34 #236382Boas Miguel,
Obrigado por este tópico magnifico, apesar de não ser adepto desse peixe, fiquei muito contente por partilhares a tua expedição de Castro Marim entre nós…. 😀
Que tenhas sorte em aparecer algumas fêmeas…. 😉
Um Abraço,
22/05/2013 às 17:20 #236383Viva!
Extraordinário, 😀 gostei muito de ler este tópico. Obrigado por partilhar a experiencia.
Um abraço.
Aníbal Coelho22/05/2013 às 19:24 #236384Boas Miguel,
Uma perspectiva sobre os Fundulus heteroclitus que eu nunca tinha abordado. De facto, é uma espécie invasora, embora muito pouco competitiva com as nossas espécies autóctones.
Para além dos Fundulus é sempre agradável ver os nossos cursos de água ainda despoluídos e reveladores de tanta beleza. Parabéns por estas incursões e por as dares a conhecer.
Abraço,
Luis Oliveira
22/05/2013 às 21:54 #236385Boas Miguel,
Bom tópico obrigado pela partilha.
Abraço
Carlos Coelho23/05/2013 às 08:29 #236386Excelente tópico!
Agora que vejo as fotos posso confirmar que em Agosto há 4 anos atrás andei mesmo nessa zona a molhar as redes e, além do escaldão na cabeça desprovida de capilosidades, não apanhei nadinha!
Agora… com essas tuas previsões… um destes dias ainda apanho disso nas salinas da Figueira da Foz… 😛 Não deixaria de ter a sua piada… embora ambientalmente fosse muito mau!
Parabéns pela viagem e obrigado por partilhares mais esta aventura!
Abraço,
Ricardo
23/05/2013 às 08:55 #236387Ricardo,
em Agosto há 4 anos atrás andei mesmo nessa zona a molhar as redes e, além do escaldão na cabeça desprovida de capilosidades, não apanhei nadinha!
Em Agosto é possível que o nível de salinidade esteja demasiado alto, mesmo para Fundulus, Neste caso uma possiblilidade é caminhar-se na direção do Guadiana centenas de metros ou mesmo um quilómetro, indo colocando o camaroeiro nas condutas, entre as salinas.
Outra possibilidade é retirar-se alguma lama na zona mais alta das salinas, demarcada pela maré. Os ovos estão lá mas eu não faço ideia em que quantidade nem a que profundidade (ao que parece, os Fundulus chegam a enterrar-se 20 cm no lodo). Portanto não sei se uma pequena amostra de lama trará ovos…
Porém, selecionando a demarcação de maré na zona de condutas próxima do pombal e retirando uma boa pazada de lama, com uns 15 cm de profundidade, eu sou capaz de apostar uma cerveja em como nascem peixinhos.
Miguel
23/05/2013 às 21:06 #236388Viva Miguel. Parabéns por mais esta colecta
Quem sabe sabe! Ricardo tens que aprender a conhecer fundulus; olha que não são rivulus, há algumas diferenças…
Já percebi: o que arranjaste foi um bom pretexto para ficar moreno!
Vitor, tens que aprender a apreciar fundulus: é daquelas coisas, primeiro estranha-se depois entranha-se.
E, Miguel, se calhar os 50% que deixaste para trás eram as fêmeas…
Uma coisa é certa apesar de muitas dúvidas ainda temos killies em Portugal!
Cps
A. Castro23/05/2013 às 23:01 #236389Diz antes emprestados Castro…
-
AutorArtigos
Tem de iniciar sessão para responder a este tópico.


