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Género Aphyosemion Myers 1924, uma introdução

Artigo publicado no Boletim da Associação Portuguesa de Killifilia, Vol. VII, nº 6 Nov./Dez. 2005
 

Autor: Vasco Gomes

 

O género Aphyosemion foi criado pelo ictiólogo norte-americano George Sprague Myers (1905-1985) em 1924 para agrupar diversas espécies de peixes africanos anteriormente englobadas nos géneros Haplochilus Agassiz 1846, Panchax Valenciennes 1846, alguns Fundulus Lacepéde 1803 e Aplocheilus McClelland 1839. Inicialmente abrangia espécies com um largo espectro de características. Com os anos, e graças à contribuição de diversos ictiólogos, a sistemática dos Cyprinodontiformes – e consequentemente dos Aphyosemion – foi sendo “refinada” e aperfeiçoada. Nem sempre existiu consenso sobre as diversas propostas e ainda hoje subsiste alguma polémica num ou noutro caso.
 
Resumidamente, e sem entrar em detalhes que não cabem num texto deste tipo, a evolução do género Aphyosemion foi a seguinte:
 
- 1924 – Aquando da sua criação, Myers dividiu-o em dois sub-géneros: Fundulopanchax e Aphyosemion sensu strictu (s.s.).
- 1933 – O mesmo Myers criou outra divisão – o sub-género Callopanchax.
- 1933 – Ainda nesse ano Hermann Meinken (1896-1976) retirou os Fundulopanchax e elevou-os à categoria de género independente, decisão essa não aceite pelos restantes ictiólogos da época pelo que Fundulopanchax se manteve como um sub-género de Aphyosemion durante mais algumas décadas.
- 1966 – A evolução que mais polémica gerou surgiu nesse ano. Stenholt Clausen decidiu pegar nas espécies de Aphyosemion com distribuição mais ocidental e agrupou-as num género novo denominado Roloffia. Contudo, Myers contestou esta teoria alegando que Roloffia não era mais do que um sinónimo recente do sub-género por si criado em 1933, os Callopanchax. A ICZN foi chamada a tomar uma posição sobre este assunto e em 1974 deu razão a Myers. Assim o nome Roloffia foi banido da nomenclatura dos Cyprinodontiformes.
- 1971 – Alfred C. Radda elevou os elementos da superespécie A. bivittatum à categoria de sub-género e deu-lhe o nome de Chromaphyosemion.
- 1976 – Maurice Kottelat descreveu um sub-género denominado Paraphyosemion.
- 1977 – Diversos sub-géneros foram criados durante este ano: Archiaphyosemion, Gularopanchax, Paludopanchax e Mesoaphyosemion por Radda; Radaella e Kathetys por Jean Huber; Diapteron por Jean Huber & Lothar Seegers.
- 1981 – Grande revisão da sistemática dos Cyprinodontiformes por Lynn Parenti. Um dos aspectos práticos mais evidentes deste trabalho foi de novo a elevação dos Fundulopanchax ao estatuto de género, desta vez com muito maior aceitação do que em 1933. Como consequência os sub-géneros, Paraphyosemion Kottelat 1976, Gularopanchax Radda 1977 e Paludopanchax Radda 1977 foram retirados do género Aphyosemion a transferidos para o “novo” género Fundulopanchax.
- Os subgéneros Callopanchax Myers 1933 e Archiaphyosemion Radda 1977 foram separados do género Aphyosemion Myers 1924 e elevados à categoria de género.
- Actualidade – A maioria dos autores considera que o género Aphyosemion é actualmente constituído pelos seguintes sub-géneros: Aphyosemion s.s. Myers 1924, Chromaphyosemion Radda 1971, Mesoaphyosemion Radda 1977, Kathetys Huber 1977, Diapteron Huber & Seegers 1977 e Radaella Huber 1977. São mais de 80 as espécies nele contidas.
 
Todas estas alterações levam tempo a ser digeridas pelos killiófilos, comunidade tradicionalmente “resistente” a mudanças que alterem os nomes dos peixes que mantêm. Por exemplo, a denominação Rollofia ainda é muito utilizada na Europa, apesar de banida. E a tradição, apesar do seu carácter não-científico, ainda tem peso. Essa é uma das razões porque em algumas convenções (incluindo as da Associação Portuguesa de Killifilia) ainda surgem grupos denominados “Grandes Aphyosemion” e “Pequenos Aphyosemion” que incluem espécies de géneros diversos. Estas designações não reflectem a sistemática vigente mas permitem ao killiófilo uma identificação mais rápida do tipo de killies incluídos nesses grupos. Outras questões se mantêm em discussão. É o caso da elevação dos Fundulopanchax a género que não tem aprovação unânime bem como a manutenção dos Diapteron como parte dos Aphyosemion. Recentemente surgiu também uma corrente favorável à elevação dos Chromaphyosemion a género independente.
 
Etimologia
“Aphyosemion” resulta da ligação das três palavras gregas aphye (= peixe), semeou (= com uma bandeira) e ion (= pequeno) em referência às semelhanças que o peixe apresenta com uma pequena bandeira devido aos filamentos nas barbatanas e à forma da cauda.
 
Distribuição e ecologia
Os Aphyosemion são oriundos da Africa Ocidental, na região situada aproximadamente entre os paralelos 7º N e 6º S. Ocorrem nos Camarões, República Centro Africana, Nigéria, Guiné Equatorial, Gabão, República do Congo (Brazzaville), República Democrática do Congo, Benin, Togo e Angola. Habitam sobretudo riachos de água límpida e corrente lenta, com fundo arenoso geralmente coberto por uma espessa camada de folhas mortas, em zonas de floresta primária e secundária e algumas zonas de savana. Estes riachos raramente excedem 2 metros de largura e 1 metro de profundidade.
 
Morfologia
Os Aphyosemion são peixes pequenos (raramente ultrapassam os 6.0 cm de comprimento total com excepção dos Raddaella que podem ir até aos 10.0cm) e esguios. O dimorfismo sexual é muito acentuado. As fêmeas exibem um padrão monótono e é muito fácil confundir fêmeas de diferentes espécies. Em oposição, os machos são, com raríssimas excepções, verdadeiramente magníficos. Na generalidade apresentam cores muito vivas com predominância de padrões vermelhos e amarelos sobre fundos azuis esverdeados. A forma das barbatanas é muito variada não sendo raras as espécies que apresentam extensões nas barbatanas caudal, dorsal e anal.
 
Manutenção em aquário
As condições para manutenção de Aphyosemion em aquário pouco divergem de espécie para espécie sendo possível definir um conjunto de “condições tipo”. Começando pelo espaço necessário, não é recomendável a manutenção de qualquer killi adulto em aquários com menos de 10 litros. Depois disso pode considerar-se que cada peixe adulto exige pelo menos cerca de 2.5 litros de água.  A generalidade dos Aphyosemion não são particularmente agressivos pelo que podem ser mantidos em grupos de vários machos e fêmeas. O substrato é supérfluo e até pode dificultar as tarefas de limpeza mas é fundamental a existência de zonas de refúgio para peixes mais débeis.  Essas zonas poderão ser constituídas por pedras, troncos ou plantas. As plantas, precisamente, são um elemento fundamental em qualquer aquário com Aphyosemion (com excepção dos aquários de reprodução como veremos mais adiante) tanto para servir de refúgio como para melhorar a qualidade da água. A este respeito o vulgar musgo de Java (Vesicularia dubyana) é fundamental mas é muito comum a utilização de feto de Java (Microsorium pteropus), Anubias e Cryptocorynes envasadas ou diversos tipos de plantas flutuantes (Ceratopterys cornutus, Lemna sp., Riccia fluitans, etc.). A iluminação deverá ser pouco intensa. Se for natural devem evitar-se locais de incidência directa do sol e se artificial deve ser filtrada com plantas superficiais ou folhas de papel.
 
Os Aphyosemion preferem águas ligeiramente ácidas a neutras e com baixa mineralização. Contudo, os parâmetros de pH e de dureza da água não são muito relevantes desde que se mantenham relativamente estáveis e longe de extremos. Em contraste, a limpeza da água é fundamental pelo que é conveniente proporcionar uma filtração mecânica e biológica permanente (mas que não provoque grande agitação da água) e proceder à mudança de cerca de 20-30% da água todas as semanas tendo sempre em atenção que a água nova deverá ter características semelhantes à existente no aquário.
 
A temperatura pode constituir uma grande condicionante à manutenção de Aphyosemion. Com efeito, a maioría das espécies não aceita temperaturas superiores a 27-28ºC ou inferiores a 15-16ºC por longos períodos de tempo. Os valores ideais situam-se na ordem dos 22-24ºC. Contudo, algumas espécies oriundas de florestas tropicais a altitudes elevadas são consideravelmente mais sensíveis a temperaturas altas sendo exemplo evidente todas as espécies do sub-género Diapteron. Para estas a temperatura ideal ronda os 18-20ºC e mantêm-se com muita dificuldade acima dos 24ºC.
 
No seu habitat natural os Aphyosemion são peixes predadores sobretudo de pequenos insectos e aranhas que caem na superfície da água. Em cativeiro é relativamente difícil imitar essas condições mas felizmente a maioría das espécies aceita sem problemas outro tipo de comida viva e congelada, com evidente preferência pela primeira.  Larvas de mosquito pretas e vermelhas, artémia salina, dáfnias, tubifex, etc, tudo é rápidamente consumido se vivo. A alimentação congelada é feita à base de artémia salina e larvas vermelhas de mosquito. Algumas espécies podem ainda ser habituadas a consumir flocos secos habitualmente comercializados para peixes de aquário. Os vermes de Grindall são um tipo de comida viva muito fácil de cultivar em casa e constituem um excelente suplemento alimentar. A alimentação base dos alevins é geralmente constituída por artémia recém nascida complementada com micro vermes.
 
Os Aphyosemion são saltadores exímios. Na natureza esta característica é determinante para a sua sobrevivência mas em cativeiro tal habilidade tem geralmente consequências funestas. Por este motivo é fundamental manter os aquários sempre cobertos não permitindo sequer que os mais pequenos orifícios - como as aberturas para passagem de tubos de ar e fios de aquecedores – estejam destapados. A lã sintética é um bom material para preencher todos os espaços vazios.
 
Reprodução em aquário
Conseguir a reprodução de Aphyosemion em cativeiro é, na generalidade dos casos, um processo relativamente simples. Partindo do princípio que os peixes gozam de boa saúde e que lhes proporcionamos boas condições ambientais e alimentares, basta colocar um meio de postura adequado à disposição de pelo menos um casal em idade reprodutiva. São diversas as variáveis a considerar: tamanho do aquário, número de machos e fêmeas, material de postura, periodicidade de recolha de ovos, acondicionamento dos ovos, etc, etc. De entre as muitas combinações possíveis destas variáveis uma das mais simples e eficazes consiste no isolamento de um casal num aquário com cerca de 10 litros de capacidade. A separação prévia de macho e fêmea durante cerca de 2 semanas e a sua alimentação abundante à base de comida viva aumenta substancialmente a produção de ovos. O aquário de reprodução deverá conter pelo menos um “mop” em lã acrílica, um pequeno filtro de canto e uma pedra ou pequeno tronco para refúgio da fêmea. A permanência de plantas nestes aquários é desaconselhada dado que alguns ovos aí iriam ser depositados dificultando a tarefa de recolha. O “mop” pode ser flutuante – com os fios a estenderem-se desde a superfície até ao fundo do aquário – ou simplesmente deixado sobre o fundo. A escolha depende das características da espécie a reproduzir e deverá ser consultada a literatura existente sobre a mesma. Na dúvida colocam-se dois ou três "mops" em diversas partes do aquário e deixar aos peixes o critério da escolha.
 
Obtem-se melhor rendimento com a recolha diária dos ovos já que assim estarão menos tempo sujeitos à predação por parte dos adultos ou de caracóis.
 
Os ovos de Aphyosemion assemelham-se a pequenas pérolas transparentes com diâmetros compreendidos entre cerca de 0.9 e 1.1mm e são visíveis a olho nú nos "mops" ou outros meios de postura. São dois os métodos habitualmente utilizados para incubação dos ovos. O primeiro consiste na sua colocação em recipientes com água limpa onde eclodirão ao fim de 2-3 semanas. É conveniente proceder a inspecções diárias de modo a retirar ovos com aspecto esbranquiçado ou atacados por fungos filamentosos, sob o risco de estes rapidamente atacarem os ovos saudáveis. A adição de um produto anti-fungico em concentrações muito baixas pode atrasar a propagação dos fungos. O segundo método consiste na colocação dos ovos em cima de turfa muito húmida. A acidez da turfa e a menor quantidade de água inibem o aparecimento e o crescimento dos fungos. Este método tem a vantagem adicional de permitir atrasar a eclosão dos ovos e aproximar as datas de nascimento. Em ambos os casos os recipientes deverão ser mantidos a temperaturas estáveis da ordem dos 22-24ºC e ao abrigo de focos de luz fortes.
 
Sendo peixes não anuais os alevins de Aphyosemion têm um crescimento razoavelmente lento e bastante variável ao nível de sub-género. Como exemplo a generalidade dos Mesoaphyosemion atingem a maturidade sexual aos 5 meses equanto os Diapteron podem demorar cerca de 9 meses a 1 ano. Regra geral a diferenciação dos sexos ocorre com 2 ou 3 meses de idade. A longevidade dos Aphyosemion em aquário pode atingir 4 a 5 anos.
 
Graus de dificuldade
Como acima ficou dito, as condições de manutenção e reprodução não variam muito entre as diversas espécies de Aphyosemion fruto de uma certa homogeneidade dos biótopos na sua área de distribuição. A maioria dessas espécies adaptam-se relativamente bem às condições que lhes podemos proporcionar em aquário e são consideradas fáceis a medianamente fáceis. Entre as mais acessíveis e adequadas a principiantes destacam-se os Aphyosemion australe, A. bitaeniatum, A. lamberti, A. celiae e A. striatum. Contudo, algumas espécies adaptaram-se a nichos ecológicos com características particulares e evoluíram no sentido de maior intolerância a condições diferentes das dos seus biótopos. Temperatura, alimentação, características químicas da água e poluição são alguns factores que exigem maior atenção quando lidamos com algumas espécies de Aphyosemion, as de grau de dificuldade elevado. Estão nesta categoria todas as espécies do sub-género Raddaella (A. batesii e A. splendidum), alguns Mesoaphyosemion (A. franzwerneri, A. hanneloreae, A. herzogi, A. joergenscheeli), as espécies de Diapteron e algumas populações de A. bualanum.
 
Conclusão
Sem dúvida que os Aphyosemion são o género de eleição entre a maioria dos killiófilos. Para isso contribui a beleza inexcedível dos machos, o seu modo de reprodução e facilidade de manutenção. Os biótopos que ocupam na natureza também não são alheios ao fascínio que estes peixes exercem sobre quem os mantém e estuda. Afinal quem não se sente atraído pela misteriosa floresta tropical Africana?
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